Oscar 2015

Enquanto o Oscar está ao vivo e as pessoas estão comentando nas redes sociais, estou pensando no rumo que minha vida está tomando. Este ano me empolguei um pouco com a premiação, mas na reta final recebi um “balde de água fria”, e desisti de assistir. Tem gente que toma birra de algumas coisas de graça; eu sou uma delas. Dos filmes que já assisti, o que mais gosto é “O Céu de Suely”, um filme que fica no extremo oposto da obrigatoriedade de ter como filme favorito “O Poderoso Chefão”, por exemplo. Dessa vez, preferi ficar com o que realmente me emocionou.

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A grama do vizinho é mais verde do que a minha

Ontem fui ao Cine Humberto Mauro, e assisti a um filme com idioma original de um dos idiomas que mais adoro nesse mundo, o Francês. Quando saí da sessão, pensei um pouco sobre o que havia acabado de assistir, e depois pensei sobre essa paixão pelo desconhecido ou pelo o que não faz parte do nosso cotidiano. De certo modo, é normal gostar de algo que não está tão banalizado no nosso dia a dia, como falar Francês, no meu caso.

Quem já assistiu Meia Noite em Paris lembra da história do Gil, que sempre idolatrou antigos escritores americanos como Ernest Hemingway e sonhava em ser como eles. Além do mais, ele sonhava em viver na época que esses escritores viveram. Temos a vontade de viver em outra época por achar que tudo seria melhor. E “Meia Noite em Paris” fala justamente sobre isso, você pode viver em qualquer época que sua vida continuará com as mesmas alegrias e tristezas de sempre. Ok, que lindo seria viver na Nouvelle Vague ou outras épocas tão aparentemente maravilhosas como essa, mas nada muda, as frustrações continuam as mesmas, só muda a data.

Sobre a questão do idioma, eu acho lindo o jeito que se fala idiomas como o Francês, Inglês ou Espanhol. Assisto filmes legendados só para ouvir os nativos falando seus idiomas. Gosto da rapidez do Espanhol, da sensualidade do Francês. Apesar de hoje termos a facilidade de consumir conteúdos em outros idiomas, costumo achar que é muito mais cool um “fuck” no meio de uma frase do que um “porra”.

Voltando ao assunto cinema, o quintal do vizinho continua sendo sempre mais verde. Acho lindo vivermos em uma época onde é possível consumir coisas do mundo todo, mas ainda esquecemos do que é produzido no nosso país. É preferível comer um cupcake de chocolate italiano a um bolo de fubá e farinha de trigo; ouvir uma banda do Sul da França do que ouvir uma banda que cante em Português; ou assistir ao último filme de Hollywood do que o filme de um cineasta que é do seu país e produz um trabalho legal, mas não tem tanta visibilidade.

Muitas pessoas teimam que o Brasil não produz filmes bons, que é difícil entrar na sala de cinema e assistir um bom filme feito por terras tupiniquins. O problema nem é todo nosso, já que algumas poucas produtoras monopolizam a maioria das salas de cinema pelo Brasil com filmes meia-boca. Mas também tem um pouco da nossa preguiça de conhecer o que de bom é produzido por nós. Se você não conhece Eduardo Coutinho, Karim Aïnouz, Glauber Rocha, Claudio Assis ou Fernando Meirelles, realmente é fácil acreditar que nada de bom é produzido pelas bandas de cá.

De fato, eu só queria acordar amanhã e ter menos paleta mexicana e mais picolé comprado na Praça da Estação.

O Banheiro do Papa

Hoje, assisti ao filme O Banheiro do Papa. O filme gera vários questionamentos, principalmente o limite que algumas instituições têm em nossa vida. O filme conta a história de como a visita do Papa João Paulo II a Melo é motivo de esperança pra várias pessoas. Uma cidade em que as pessoas vivem com pouco, o filme retrata mais do que a fé das pessoas na melhora de vida, mas é um ponto de partida para pensarmos na força que têm a mídia, fé, capitalismo e a sociedade.


No filme ou na vida real, muitos têm fé.  Temos muito sonhos, e precisamos acreditar neles para que possivelmente eles se realizem.  No filme, Beto sonha em ter uma moto; sua filha, Silvia, sonha em ser locutora de rádio; Carmen, sonha em comprar amido, pagar a conta de luz e que sua filha seja uma locutora de rádio. Durante todo o filme vemos a fé permeada na vida das pessoas, que sonham em melhorar de vida. Mas é algo que parece impossível numa cidade esquecida pelo mundo, mas que, infelizmente, lembrada pelo Papa. A ida do Papa a cidade de Melo é motivo de esperança para as pessoas, de prosperar de vida. Mas, não por acreditar em um milagre que mudará tudo, mas que a ida do Papa a cidade fará com que milhares de outras pessoas irão também, e é visto nisto uma chance de ganhar dinheiro vendendo água e comida. Beto vai no sentido contrário, e constrói um banheiro e cobrará pelo seu uso durante a visita Papal.

Se temos três poderes oficiais, alguns dizem que a mídia é o quarto. E não é algo que se duvide, realmente. É noticiado no filme que milhares de pessoas vão para Melo, e como não acreditar nisso? Passou na TV. Alguns até se endividam para comprar os materiais necessários para fazer as comidas. Quando se constata que todo esse trabalho que tiveram foi em vão, e que essa esperançosa visita foi um fiasco, alguns desacreditam de tudo, novamente. Uma das cenas mais lindas do filme, que apesar da situação não ser tão linda quanto, é quando o repórter fala que a visita do papa foi um sucesso, e que a cidade deseja que ele volte novamente; nesse momento Beto está num bar junto com seus amigos, e ele sempre retruca falando que realmente não foi nada daquilo que aconteceu. Por ficar tão enfurecido com tanta mentira ele joga uma garrafa na televisão.

Sem títuloO filme é, além de tudo, uma história de amizade e de uma vida simples – nem por isso pior – no interior. Gosto muito de falar sobre cidades do interior, principalmente pelo fato de eu ter vivido em uma boa parte da minha vida. Como percebe-se no filme, tudo acaba se tornando mais fácil, apesar de difícil. É um vizinho que empresta uma xícara de açúcar, é uma vizinha de porta que de tanta intimidade chega em sua casa sem avisar que está indo – não que isso seja ruim. É uma forma de vida em que vemos que o dinheiro não compra tudo. Você pode ir no supermercado e comprar um pacote de açúcar, e quando ele acabar você ir lá comprar outro. Mas, uma coisa posso te garantir: é muito mais prazeroso ir na casa de um vizinho pedir açúcar emprestado para fazer café, e ficar por lá para beber um pouco de café e ouvir boas histórias.