Perguntas ainda sem respostas

À medida que crescemos, não de tamanho, mas em relação ao aumento das nossas responsabilidades perante nós mesmos, nossa família e a sociedade, perguntas parecem ser infindáveis. Na verdade, a vida é repleta de questionamentos que às vezes são só a reprodução de um discurso já batido, como “Quando é que sai o casamento?”, ou são questionamentos mais profundos, em relação à nossa existência ou a padrões impostos que já não são mais aceitos.

O questionamento da vez veio da minha mãe. Me perguntou se quando eu terminar minha graduação ela poderá se mudar pra Belo Horizonte ou onde eu for morar pra morar junto comigo. Eu que prefiro ter asas invisíveis e alçar voos, fiquei sem saber o que responder.

Lembro que minha mãe também já teve essas asas invisíveis. Viajou pra estudar, pegou carona com desconhecidos e foi atrás do pai que não conheceu. Pra quem ainda pouco voou e quase não tem experiência nisso, talvez voar com quem é experiente seja a forma de encontrar respostas pra perguntas que atormentam e atalhos pra difíceis caminhos. Talvez só de estar perto seja bom.

Para amenizar as dores

“Se Deus quiser, vai dar certo”. Fala isso mais por costume do que por acreditar que Deus fará alguma coisa por ele. Força do hábito mesmo por ter sido criado em uma família católica em que todos costumam colocar as coisas nas mãos de Deus. Hoje, para ele é apenas a representação de algum ser que está por aí, receoso se realmente somos vigiados por ele vinte e quatro horas por dia, mas prefere tomar a rédea da sua vida do que colocá-la nas mãos de Deus.

Se ele falasse que controla sua vida sozinho, certeza que é balela. Algumas coisas, sim, param na mão de Deus para, talvez, ter uma maior agilidade na resolução de alguns pepinos da vida.

Há tempos não coloca os pés numa igreja, mas reza todas as noites antes de dormir. Quando está com muito sono, faz uma oração apressada, quase que um tropeço de palavras, só para cumprir sua função diária. Alguns dias realmente não consegue nem começar, e tenta se redimir n’outro dia, rezando durante o café da manhã.

Suas orações, na verdade, são mais como uma obrigação diária do que como se acreditasse e tivesse fé naquelas palavras que professa  silenciosamente. Resolveu colocar as coisas só na sua própria mão, e não colocar na de outrem, que tem uma clientela mais fiel do que ele. Clientela enorme por sinal, o que gerava sempre filas enormes com inúmeros pedidos.

Queria mesmo era acreditar em alguma coisa, ter alguma crença, qualquer uma que fosse. Talvez assim as coisas seriam mais fáceis e as dores mais suportáveis.

Vai, ser gauche na vida

Você me deu essa incumbência de ir trilhar meu caminho, se absteve de todas as decisões.”Segue seu caminho, passarinho”. E lá fui, sem eira nem beira, cuidar disso que acatei sem pestanejar. Fui indo, sem pensar que um dia vocês iam me faltar. Fisicamente.

Fui lá, tentar ser gauche na vida, mas quando fui, não sabia que ia querer voltar. Voltar para afagar, e conseguir continuar indo. Mas, agora, mesmo indo e vindo, esses encontros de pouca duração já não são mais possíveis de afagar essas idas de mais de ano. Agora, eu só quero voltar, e nunca mais ir.

Gentileza gera gentileza

Semana passada, quando estava indo para o inglês, em horário de pico, um senhor de mais ou menos 60 anos cedeu seu lugar para uma jovem, que estava segurando dois livros pesadíssimos sobre Direito Constitucional. A moça, assim que se sentou, publicou no Facebook a seguinte mensagem: “Ainda existe pessoas gentis. #GentilezaGeraGentileza”.

Acho engraçado o fato de ela publicar isso no Facebook. Eu poderia ficar aqui cheio de blá blá blá, e falar que hoje tudo se publica nas redes sociais. Mas, não é essa a questão que quero trazer, e, sim, o fato de nos impressionarmos com gestos e delicadezas que não eram para se admirar.

Hoje, boas ações estão tão extintas, que nos surpreendemos quando alguém decide revivê-las. É assim com tudo que é escasso. Diamantes são caros, pois não achamos tantos como pedras portuguesas. Tudo que é mais difícil de se encontrar, custa mais caro. Isso vale para as pedras, para profissionais de várias áreas, vale para a vida. Tudo que é mais escasso e difícil, damos mais valor.

Uma pessoa jogar lixo no lixo, ceder seu lugar no ônibus para quem realmente precisa ou saber ser gentil com as pessoas são coisas escassas, e que quando vemos acontecer, damos valor e gostamos de exaltar. Isso não é de todo ruim, mas melhor seria se coisas assim não precisassem de serem exaltadas.

Imagem: Tumblr

E se eu morresse agora?

Se eu morresse agora perderia a chance de conseguir muitas coisas que quero ao longo da vida. Algumas materiais, como um apartamento, um cachorro ou gato, um diploma de bacharelado em publicidade e propaganda; e outras imateriais, como viagens para o exterior, longas conversas com meus pais, minha avó, meus amigos, um emprego em uma grande agência de comunicação.

A gente sonha para manter a vontade de viver acesa. Acredito que sem sonhos não há motivos para continuar vivo. Essa linha tênue entre o nascimento e a morte é quando colecionamos coisas, das mais variadas formas.

Ontem quando fui ao supermercado fazer as compras da semana fiquei paralisado com um senhor sendo grosseiro com a atendente no caixa. Queria ter tido uma atitude maior em relação ao fato, talvez chamado a polícia para ele, ou sei lá o que. Tão perplexo que fiquei, que não consegui ter atitude. Coisas como essa me deixam triste, e sem motivos para continuar sonhando, logo, querendo viver.

Se eu estiver sete palmos abaixo da terra, não terei consciência de que perdi tantas oportunidades de poder transformar as coisas, por mais pequena que seja minha participação. Não  terei consciência de que perdi tantas oportunidades pelas quais tento conseguir. Mas se ainda capto oxigênio involuntariamente, continuarei tendo sonhos, e tentando realizá-los. Mesmo que alguns percalços me façam pensar em desistir, estarei lá, tentando, e tentando, até quando minhas pálpebras se juntarem uma na outra.

Relógio quebrado

Estou começando a perder a noção dos dias, não sei se hoje é sexta ou sábado ou domingo. Começo a confundir os dias úteis com a sensação do fim de semana. Vivendo enclausurado nesse apartamento de fundos onde quase não entra luz, a não ser pelas frestas das janelas entreabertas. Já não sigo mais as horas que me foram impostas para fazer as tarefas diárias.

Queria sair um pouco desse habitat onde tudo se congela, meus pés, minhas mãos, e até meus sentimentos. Mas não quero largar dessa roupa confortável que me veste para me apropriar de alguma indumentária da última coleção outono/inverno. Prefiro meu moletom puído, que tenta me esquentar, do que gastar alguns minutos pensado numa composição cromática para não errar mais uma vez na escolha do look, depois de tanto errar na vida.

Os dias se passam, e tento evitar sair ao máximo desse ambiente que me consola e esconde-me dessa indiferença externa. Continuarei evitando tudo que cessa meu ar, que me causa calafrios, e não me faz sentir bem. E continuarei aqui, debaixo desse cobertor, que me esquenta sem pedir nada em troca, e me consola sem esperar algum retorno.

Pensamentos vagos

Nas últimas semanas estou tendo grande contato com minha vida de 10 anos atrás. Dessa última vez foi em um sonho que tive durante essa madrugada. Na verdade, acho que foi quase quando eu estava acordando. Às vezes me pego pensando ou tendo sonhos, como o de hoje.

Não moro com meus pais desde os 13 ou 14 anos, não me lembro ao certo. Tive que sair de casa pra estudar, como muitas pessoas que moram em pequenas cidades. No início dessa saída eu fazia visitas constantes, quase toda semana. Mas, quanto mais a distância aumenta, essas visitas vão ficando mais difíceis de serem feitas com tanta frequência como antes.

Pelos fatos das últimas semanas, trocaria meu nome por Melancolia. Tá, não é um nome que se coloque em alguém, mas é o que sinto toda vez que faço essa regressão na vida, sem a ajuda de um terapeuta.

Sinto saudade dos amigos de infância, dos meus pais, tias, da minha avó que já apareceu por aqui em uma fotografia. Sinto falta de todos, e esse vazio não está mais sendo possível de ser preenchido nas conversas por telefone. Essa necessidade de voltar há 10 anos se faz cada vez mais necessária. Acho que é possível de ser resolvida em uma semana, no feriado de Carnaval. Mas tudo acaba voltando, os sonhos, os pensamentos sem fim.

Fotografia: Isabella Veloso

Suave

Acho que a vida é feita de momentos. Há aqueles em que a gente só quer curtir loucamente a vida, e esquecer um futuro de compromissos e contas a pagar. E há aqueles em que queremos poucos amigos e viajar ao menos uma vez por ano pra lugares que não estão nas listas dos países onde os brasileiros mais gastam dinheiros em compras.

Também costumo achar que a metáfora é a melhor forma de fazer com que a vida se torne mais leve, mais fácil. Alguns dizem as coisas que nos dedicamos com afinco, projetos pessoais e profissionais têm que serem difíceis, trabalhosos, mesmo dando tudo certo no final. A premissa disso é que tudo que é mais trabalhoso de ser feito damos mais valor. Mas, também concordo que precisamos de momentos mais suaves, apenas sombra e água fresca. Fico em cima desse muro sem saber ao certo qual lado é o correto ou se os dois são errados.

Posso caminhar durante horas debaixo das árvores e marquises dos prédios em dias ensolarados. Mas não suportaria se essas sombras que me acalentam do calor não existissem.

Por mais paradoxal que possa ser para uns, costumo achar também que a vida se torna mais suave em dias nublados com temperaturas abaixo do que poderíamos suportar sem um casaco ou um cobertor, daqueles que já, apesar de puídos, continuam nos esquentando. Talvez o melhor da vida mesmo seja aquilo que é de graça, ou, quem sabe, um chocolate quente em um dia frio, por mais que isso tenha um valor a ser pago. Se não for tudo isso, o melhor mesmo deve ser voltar a ser criança.

Linha tênue

Essa noite me peguei pensando em todo esse percurso que levamos desde o nascimento até a morte. Estou ouvindo o novo disco da Banda Mais Bonita da Cidade, e o encarte é composto, além das letras das músicas, por fotos de familiares dos integrantes da banda. Vejo a foto de uma senhorinha, linda, que acredito ser a avó de um deles.

O disco é bom, pode escutá-lo. Mas olhando a foto da senhorinha, percebo que ela está com os olhos quase fechados. E é engraçado, assim como um amor efêmero, a vida tem início, meio e fim. Ok, isso você sabe, mas do jeito que eu percebi isso nesse momento foi necessário que meu pensamento fosse transmutado nesse texto.

Nascemos com os olhos fechados, e ele vai se abrindo aos poucos. É quase como uma forma de ainda estar se preparando para tudo que está por vir. Se preparar, principalmente, para as coisas difíceis. Daí você fecha seus olhos, mentaliza, e acredita que depois tudo será mais fácil resolver.

É um jeito um pouco trágico de encarar, mas quando as pessoas estão idosas tenho a impressão de que com o passar do tempo elas vão fechando os olhos. Observe. Eu nunca parei para observar, mas farei a partir de agora. Aí tenho a sensação de que eles vão fechando para encarar o que de ruim ainda está por vir. Mentalizam. O triste é que nesse momento não é possível que se abra os olhos novamente.

Os críticos da vida

A gente acostuma a se incomodar muito com o que os outros fazem. E, por vezes, o que nos incomoda são coisas que nem deveriam nos incomodar. É uma roupa que alguém está vestindo, é o seu sobrepeso, ou mesmo uma música, que para nós é uma aberração, mas para quem ouve e gosta é apenas alguma coisa que faz com que sua vida não caia no modo piloto automático.

Não sei o que acontece, mas temos uma necessidade fundamental em nos incomodar com o que não nos afeta. Ou não deveria afetar. Acho que tem a ver com um pouco da necessidade das pessoas serem críticas da vida; tem os críticos de cinema, os de música, e algumas pessoas são críticas da vida, aquelas que criticam tudo e todos ao seu redor.

Imagem: Isabella Veloso