Suave

Acho que a vida é feita de momentos. Há aqueles em que a gente só quer curtir loucamente a vida, e esquecer um futuro de compromissos e contas a pagar. E há aqueles em que queremos poucos amigos e viajar ao menos uma vez por ano pra lugares que não estão nas listas dos países onde os brasileiros mais gastam dinheiros em compras.

Também costumo achar que a metáfora é a melhor forma de fazer com que a vida se torne mais leve, mais fácil. Alguns dizem as coisas que nos dedicamos com afinco, projetos pessoais e profissionais têm que serem difíceis, trabalhosos, mesmo dando tudo certo no final. A premissa disso é que tudo que é mais trabalhoso de ser feito damos mais valor. Mas, também concordo que precisamos de momentos mais suaves, apenas sombra e água fresca. Fico em cima desse muro sem saber ao certo qual lado é o correto ou se os dois são errados.

Posso caminhar durante horas debaixo das árvores e marquises dos prédios em dias ensolarados. Mas não suportaria se essas sombras que me acalentam do calor não existissem.

Por mais paradoxal que possa ser para uns, costumo achar também que a vida se torna mais suave em dias nublados com temperaturas abaixo do que poderíamos suportar sem um casaco ou um cobertor, daqueles que já, apesar de puídos, continuam nos esquentando. Talvez o melhor da vida mesmo seja aquilo que é de graça, ou, quem sabe, um chocolate quente em um dia frio, por mais que isso tenha um valor a ser pago. Se não for tudo isso, o melhor mesmo deve ser voltar a ser criança.

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Linha tênue

Essa noite me peguei pensando em todo esse percurso que levamos desde o nascimento até a morte. Estou ouvindo o novo disco da Banda Mais Bonita da Cidade, e o encarte é composto, além das letras das músicas, por fotos de familiares dos integrantes da banda. Vejo a foto de uma senhorinha, linda, que acredito ser a avó de um deles.

O disco é bom, pode escutá-lo. Mas olhando a foto da senhorinha, percebo que ela está com os olhos quase fechados. E é engraçado, assim como um amor efêmero, a vida tem início, meio e fim. Ok, isso você sabe, mas do jeito que eu percebi isso nesse momento foi necessário que meu pensamento fosse transmutado nesse texto.

Nascemos com os olhos fechados, e ele vai se abrindo aos poucos. É quase como uma forma de ainda estar se preparando para tudo que está por vir. Se preparar, principalmente, para as coisas difíceis. Daí você fecha seus olhos, mentaliza, e acredita que depois tudo será mais fácil resolver.

É um jeito um pouco trágico de encarar, mas quando as pessoas estão idosas tenho a impressão de que com o passar do tempo elas vão fechando os olhos. Observe. Eu nunca parei para observar, mas farei a partir de agora. Aí tenho a sensação de que eles vão fechando para encarar o que de ruim ainda está por vir. Mentalizam. O triste é que nesse momento não é possível que se abra os olhos novamente.

Os críticos da vida

A gente acostuma a se incomodar muito com o que os outros fazem. E, por vezes, o que nos incomoda são coisas que nem deveriam nos incomodar. É uma roupa que alguém está vestindo, é o seu sobrepeso, ou mesmo uma música, que para nós é uma aberração, mas para quem ouve e gosta é apenas alguma coisa que faz com que sua vida não caia no modo piloto automático.

Não sei o que acontece, mas temos uma necessidade fundamental em nos incomodar com o que não nos afeta. Ou não deveria afetar. Acho que tem a ver com um pouco da necessidade das pessoas serem críticas da vida; tem os críticos de cinema, os de música, e algumas pessoas são críticas da vida, aquelas que criticam tudo e todos ao seu redor.

Imagem: Isabella Veloso

Pessoas e suas histórias

Gosto de conhecer pessoas. E não me acho melhor nem pior por isso. Se bem que gostar de conhecer pessoas é algo um tanto quanto normal; mas se bem que tem gente que não gosta desse ato prosaico. Gosto de conhecer pessoas no ponto de ônibus, no shopping, no bar – gosto de conhecer suas histórias. Pode parecer bobagem, e não tem a ver com ser curioso, mas saber da vida de outra pessoa é uma experiência deveras interessante.

Quero saber da vida da Ana do café, do seu Zé do estacionamento, da Maria que está na terceira série do ensino fundamental. Conhecer pessoas e saber da sua história é crescer como ser humano. É saber mais das pessoas que te rodeiam. Já dizia Millôr Fernandes: “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem.”. E essas sim, são as pessoas que quero conhecer.

O jornalista Gay Talese disse em uma entrevista ao canal Globo News que é melhor conversar com pessoas anônimas pois se perguntadas algo elas falam o que realmente pensam, já um famoso, muitas vezes – entenda-se muitas vezes por sempre – diz o que dizem pra ele dizer.

Conversando com uma conhecida, ela me disse da labuta que é cuidar de seu filho doente. De ter que levar ao médico, pegar vários ônibus pra buscar o remédio gratuito, e das mais várias complicações que ela tem que lidar todos os dias. Depois dessa curta conversa, parece que tanta coisa vem à tona. Às vezes eu reclamo tanto da vida, que tantos fatos acontecem diariamente pra que, talvez eu pare com essa lamúria. Ninguém disse que a vida é fácil. Pra uns é mais, pra outros, menos. É só saber dar aquele jeitinho quando algo ficar inaturável.

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

— Pra mim que mudei pra uma cidade bem maior que a minha faz pouco tempo, esse texto caiu bem como uma luva. Quem sabe pra você também. Esse é um texto da magnífica escritora Marina Colasanti, extraído do livro “Eu sei, mas não devia”, Editora Rocco.

Considerações sobre Clarice Lispector

Prefiro não ser fã de ninguém, quero sempre estar aberto à possibilidade de conhecer novos escritores, novos cantores, e não ser adepto de apenas um. Fui fisgado pela escrita de Clarice Lispector quando li o seu livro A Hora da Estrela, em seguinte, o livro de contos Felicidade Clandestina. O texto de Clarice é simples, suave; faz com que queiramos ter suas escritas gravadas em nossa mente. Criticar não é o que quero, mas desprezo pessoas que se auto-intitulam adoradoras de tal escritor sem ao menos ter lido um livro do mesmo, apenas por terem lido suas frases, que nem se tem certeza se são de tal escritor, de fato. Não que essas frases – textos curtos – não façam parte da obra de Clarice, mas não posso dizer que sou fã dos Beatles, quando só sei cantar a música Help!. Mas, como disse, não estou aqui pra criticar. Quem sou eu pra isso.

Assistindo essa entrevista de Clarice, queria ter tido a oportunidade de conversar com ela no mínimos dez minutos, tempo suficiente pra saber um pouco mais sobre ela, fazer perguntas que gostaria de ter respostas. Não sei se pelo cansaço – pelo o que ela disse na entrevista – mas Clarice parece uma pessoa triste. Cansada, quem sabe. Cansada de alguma coisa que eu perguntaria o motivo se eu tivesse esses dez minutos.

Morte e vida

Às vezes paro e tento descobrir qual o significado da vida. Qual o significado da existência humana, de sua essência. Não sou Freud, nem Sócrates, mas tento tirar minhas próprias conclusões à respeito da vida. Porém sou uma pessoa como todas as outras que sabe que assim como nascemos, vamos falecer um dia. Prefiro o uso do termo falecer, acho morrer um termo muito pesado. Mas não há eufemismo que possa justificar a dor que é perder alguém que se ame tanto.

Não tenho medo de morrer. Tenho medo de ser enterrado vivo, mas não sei porque sempre tive esse medo. Talvez por assistir tantos filmes na minha idade pueril. Quando eu me tornar um velho rabugento, quero que essa “parafernalha” chamado celular seja colocado no meu túmulo. Não pra eu ligar pra alguém se eu acordar, mas sim, para postar em alguma rede social da época. Balela, espero que isso não aconteça comigo, acho que não há desespero maior que esse. Mas já estarei lá mesmo, mais algum tempo sem oxigênio e CATAPUMBA!

É normal termos medo na vida, só não podemos ser covardes. É habitual ter humildade, mas não se torne uma pessoa humilde no sentido mais pejorativo da palavra. Voltando ao assunto principal da crônica… Morrer, sem eufemismo mesmo, é uma lástima que todos participaremos um dia, que nem festas de final de ano na firma, não há pra onde escapar.

O fato é que a terra há de comer todos esses corpos que nesse planeta habita: ricos, pobres, brancos, negros… Todavia, esse momento para uns há de demorar, para outros nem tanto, mas seja para um ou para outro ainda há algum tempo. Dias. Meses. Anos. Enquanto esse momento não bate na porta, que aproveitemos cada segundo da vida, que é tão efêmera quanto uma folha de papel ao ser queimada. Que digamos “bom dia”, que tenhamos zelo por quem que para conosco tem afeto. Faça o que fizer, repita o que disse, mas antes de dormir ligue para aquela pessoa que você está brigado, de mal. Peça desculpas, e logo após coloque a cabeça no travesseiro e durma tranquilamente.