Samba da meia noite

Saímos para fazer samba. Falando a verdade verdadeira, saímos para beber, espairecer. Não foi uma semana fácil em nossas vidas. Precisávamos espairecer.

Bom músico que é, não sai de casa sem algo que possa fazer um batuque, nem que seja uma caixa de fósforo, que certamente nunca esquece, já que sempre bebe cerveja com a companhia do seu cigarro de palha.

Eu que nem sabia que era músico, vagando  pela madrugada, fizemos um samba que nem samba sabemos se é.

O céu estrelou, o povo dormiu
Eu pelas ruas, você já deitada
Meu amigo Caetano certo está
Gente nasceu pra brilhar
Pra morrer é que não foi

E assim fomos, caminhando e batucando em cada mesa de bar que encontrávamos aberto, até o dia raiar. Os problemas começam sempre na mesa do bar e acabam de manhã na primeira golada de um café sem açúcar. Talvez dessa vez tivéssemos atinado para a realidade.

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Última vez

Transaram como se fosse a primeira vez que estavam praticando o ato. Ou a última. A melhor transa que ela lembra já ter feito com a mulher que mais ama. Comprou vinho, queijos dos mais variados tipos e velas – de todas as cores e cheiros. O melhor clima para a melhor transa da vida que estava para acontecer.

Ester teve um dia cansativo, era sexta-feira, e queria chegar logo em casa ao menos para descansar, mas com as constantes brigas que estava tendo com a esposa, adiou um pouco sua ida para casa. Queria e não queria conversar com a mulher que ela mais amou até hoje.

– O melhor vinho do porto, por favor. – solicitou Ester

Pediu ao sommelier o melhor vinho, não importava o preço, queria beber o vinho que a encantou na sua última viagem a Portugal. Dizem que nesse vinho há algo que aguça todas nossas papilas gustativas, umas que nem sabíamos existir. Era esse mesmo que decidiu levar, pagou à vista, no dinheiro.

Antes de ir para casa, deu umas voltas pela cidade para arejar. Mas o que Ester não queria era chegar em casa.

Avistou uns amigos num bar na Vila Madalena, ligou para confirmar se eram eles, estacionou o carro e foi ao encontro. Ficou conversando e bebendo por algum tempo, até que percebeu que já era hora de ir embora. Deixou o dinheiro para pagar sua  parte e foi embora. Nem cogitou pegar táxi mesmo depois de beber três copos de cerveja. Como morava a cinco quarteirões do bar onde estava, achou que não teria problema em dirigir.

Chegou em casa, beijou sua esposa e ficaram conversando. Beberam o melhor vinho do porto, comeram os queijos de nome que era até difícil pronunciar. Velas acesas, a música que as duas amavam tocando e a melhor transa da vida delas acontecia. A melhor transa, o melhor gozo, a melhor noite.

Ester morreu depois da transa. Morreu por dentro ao constatar que não ama mais quem ela amou por tantos anos.

Mudança

Separava tudo com o maior cuidado possível.

Peça

            por

Peça

Manejava minuciosamente como quem cuidava de uma vida. Uma jarra de cristal que não poderia cair no chão, um relógio Rolex que ganhou do avô e até mesmo seus sapatinhos de cristal que usou na formatura do colégio. Tudo era separado e colocado em três caixas diferentes.

Uma caixa era para doação, mas escolheu apenas objetos que ainda tinham uso, só daria para outrem por achar que já cumpriu o que tinha de cumprir em suas mãos, corpo ou casa. Colocou alguns objetos nessa caixa depois de envoltos pelo jornal do dia anterior.

Uma outra era a das coisas que iam para o lixo. Tudo com qualquer sinal de má qualidade e de mais nenhum uso possível era colocado nessa caixa.

A última, por fim, era dos desapegos de sentimento. As angústias, medos e inseguranças, apenas para começar. Relutava, às vezes, e queria deixar alguns imexíveis, que vivência já não mais tinham. Estavam lá, apagados, mas precisava desapegar para que não acordassem e fossem motivo de mais dor.

Depois de tanto reluto e ferocidade, limpou as gavetas, dobrou delicadamente o paninho que usara e saiu sem trancar a porta com as pequenas caixas debaixo dos braços. Não trancou a porta, mas deixou uma fresta para quem tivesse de entrar. Relutou em jogar fora todos os sentimentos e, apesar de já estarem todos na caixinha debaixo do braço, esperava que tudo desse certo agora que mudara tudo em si.

Caixa postal

Após o sinal deixe seu recado.

Carol, me atende, eu sei que você tá aí. Eu já fui duas vezes na portaria do seu prédio, e o Seu Silvio disse que você está em casa, mas falou que você pediu pra não deixar eu subir. Por que você tá fazendo isso? É isso que tô me perguntando e não encontro a resposta. Na verdade, a resposta dessa pergunta que fica martelando na minha cabeça só depende de você, mas, de fato, morrerei sem saber. Mas quer saber a verdade? Eu tô pouco me fodendo pra tudo isso. Eu já fiz de tudo pra tentar entender porquê tudo chegou nesse ponto, e se você não quer me ajudar encontrar a resposta, não vou procurar sozinho. É isso. Eu desisto. Vou partir pra outra e buscar novas respostas pra outras outras perguntas com quem vai me ajudar nessa busca. Talvez o amor seja isso, uma eterna busca por respostas. Mesmo que ela se encontre no silêncio dos pares. Um abraço, Carol, e depois desça na portaria e busque seus pertences que a mim não pertencem mais.

Imagem: http://isabella-veloso.tumblr.com/

Acabou

Não dá mais. Eu juro que tentei de todas as formas, mas não dá mais. Precisamos buscar alguma forma de acabar com isso, e acho que essa será a melhor. Juro que tentei. Mas você me força a isso, a romper com todos esses anos de trocas de afeto. O carinho que eu tinha por você se esvai assim como essa água que escorre pela janela. Mas não quero que seja assim.

Eu sempre vou lembrar de você, pode acreditar. Foram muitos anos juntos, não há como esquecer tudo. Como esquecer de quando você me levou pra tomar sorvete, e quando a gente ia embora a pé começou a chover? E aquela vez que fomos comprar aquele vestido branco com bolinhas vermelhas e você falou que parecia comigo quando eu estava de catapora? Impossível esquecer todos esses momentos. Mas tenho certeza que não dá mais.

Está decidido. Quero deixar de ser sua filha.

Imagem: Fabio Costello

Querido,

Querido, você já tomou banho? Você sabe que sujo não conseguirá uma namorada.

Onde já se viu querer dormir sem tomar banho?

Já tomou banho? Está passando da hora, e estou cansada de perguntar isso.

Vá, assim eu paro de perguntar, e você para de se irritar comigo.

Querido, e as notas na faculdade, estão boas?

Sabe que quero muito te ver formado?

Acho que vai ser o dia mais feliz da minha vida.

Querido, você está no estágio?

Não quero te atrapalhar, muito menos que seja demitido.

Te amo. Até logo.

Encosto em uma parede, e sinto como se fosse abraçado por ela.

Na indecisão, escolha na sorte

Ele estava na entrada do Conjunto Nacional na Avenida Paulista, e decidiu entrar e ir a Livraria Cultura. Precisava comprar um presente, e decidiu comprar um livro. Não sabia qual escolher dentre tantos gêneros: gastronômicos, literários, musicais, e até obras de arte reproduzidas no papel. A decisão não era fácil. Não por ter tantos livros, mas por ele não saber para quem daria esse presente. Se um homem, uma mulher, uma criança, um analfabeto funcional, uma mãe, ou uma puta. E, por não conhecer o bendito ou bendita que receberia esse presente, ficou sem saber qual compraria.

Não queria gastar muito tempo escolhendo um livro. Dizia ele que “a vida é muito curta. Não perco tempo nem escolhendo cueca, vou perder escolhendo livro?”. E resolveu andar de olhos fechados pela livraria e pegar o primeiro livro que trombasse. Pegou um livro sem pensar em qual era seu autor, ou sobre o que tratava, pegou. Ao ver, era um livro de um autor brasileiro, conhecido por poucos, admirado por muitos. Era o livro Barba Ensopada de Sangue de Daniel Galera. Pegou, pagou, levou.

Depois saiu andando pela Paulista pensando nesse presente, pra quem ele daria, quem seria o presenteado. Por ter comprado um presente sem nem saber pra quem daria, não sabia se voltava à livraria pra devolver livro ou se ficava com o livro para si. Resolveu continuar com o estimado, e continuou andando até que o lusco-fusco o desse aflição por ainda estar com aquele presente em mão. Viu que já era passada a hora de se desfazer dele. Precisava acabar com essa angustia, ou devolveria o livro, mesmo sabendo que seria difícil. Mentiria, se preciso fosse.

Depois de tanto perambular pela avenida, pegou um metrô da linha amarela em direção ao bairro de Pinheiros. Quando chegou na estação onde ia descer, caminhou até a rua Tucambira. Quando chegou no número 56 olhou pro lado e tinha uma pessoa sentada no chão. Quando se deu por conta já estava perto do Rio Pinheiros, e a mesma pessoa que estava sentada na rua Tucambira, estava lá, perto do rio, sentada, como se estivesse pensando na vida. Foi aí que ele pensou que deveria ter comprado outro livro, quem sabe o Escritos na Água de Alcione Araújo.