Última vez

Transaram como se fosse a primeira vez que estavam praticando o ato. Ou a última. A melhor transa que ela lembra já ter feito com a mulher que mais ama. Comprou vinho, queijos dos mais variados tipos e velas – de todas as cores e cheiros. O melhor clima para a melhor transa da vida que estava para acontecer.

Ester teve um dia cansativo, era sexta-feira, e queria chegar logo em casa ao menos para descansar, mas com as constantes brigas que estava tendo com a esposa, adiou um pouco sua ida para casa. Queria e não queria conversar com a mulher que ela mais amou até hoje.

– O melhor vinho do porto, por favor. – solicitou Ester

Pediu ao sommelier o melhor vinho, não importava o preço, queria beber o vinho que a encantou na sua última viagem a Portugal. Dizem que nesse vinho há algo que aguça todas nossas papilas gustativas, umas que nem sabíamos existir. Era esse mesmo que decidiu levar, pagou à vista, no dinheiro.

Antes de ir para casa, deu umas voltas pela cidade para arejar. Mas o que Ester não queria era chegar em casa.

Avistou uns amigos num bar na Vila Madalena, ligou para confirmar se eram eles, estacionou o carro e foi ao encontro. Ficou conversando e bebendo por algum tempo, até que percebeu que já era hora de ir embora. Deixou o dinheiro para pagar sua  parte e foi embora. Nem cogitou pegar táxi mesmo depois de beber três copos de cerveja. Como morava a cinco quarteirões do bar onde estava, achou que não teria problema em dirigir.

Chegou em casa, beijou sua esposa e ficaram conversando. Beberam o melhor vinho do porto, comeram os queijos de nome que era até difícil pronunciar. Velas acesas, a música que as duas amavam tocando e a melhor transa da vida delas acontecia. A melhor transa, o melhor gozo, a melhor noite.

Ester morreu depois da transa. Morreu por dentro ao constatar que não ama mais quem ela amou por tantos anos.

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Mudança

Separava tudo com o maior cuidado possível.

Peça

            por

Peça

Manejava minuciosamente como quem cuidava de uma vida. Uma jarra de cristal que não poderia cair no chão, um relógio Rolex que ganhou do avô e até mesmo seus sapatinhos de cristal que usou na formatura do colégio. Tudo era separado e colocado em três caixas diferentes.

Uma caixa era para doação, mas escolheu apenas objetos que ainda tinham uso, só daria para outrem por achar que já cumpriu o que tinha de cumprir em suas mãos, corpo ou casa. Colocou alguns objetos nessa caixa depois de envoltos pelo jornal do dia anterior.

Uma outra era a das coisas que iam para o lixo. Tudo com qualquer sinal de má qualidade e de mais nenhum uso possível era colocado nessa caixa.

A última, por fim, era dos desapegos de sentimento. As angústias, medos e inseguranças, apenas para começar. Relutava, às vezes, e queria deixar alguns imexíveis, que vivência já não mais tinham. Estavam lá, apagados, mas precisava desapegar para que não acordassem e fossem motivo de mais dor.

Depois de tanto reluto e ferocidade, limpou as gavetas, dobrou delicadamente o paninho que usara e saiu sem trancar a porta com as pequenas caixas debaixo dos braços. Não trancou a porta, mas deixou uma fresta para quem tivesse de entrar. Relutou em jogar fora todos os sentimentos e, apesar de já estarem todos na caixinha debaixo do braço, esperava que tudo desse certo agora que mudara tudo em si.