O pó

“O problema é o pó que acumula sobre os objetos, sobre as relações e sobre os projetos.
O pó que acumula quando a gente não se mexe, quando a gente não mexe as coisas e quando a gente não mexe com alguém.
Embaixo do pó ainda existem possibilidades.
Mas o problema é o pó.”

Tiago Moralles

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Paulo Leminski para um dia de chuva

Para os dias de chuva e frio, daqueles que só queremos ler um livro ou assistir um filme e tomar uma xícara de chá, uma poesia do Paulo Leminski, que fala sobre saudade e incertezas.

objeto sujeito

você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade
pelo lado de dentro
como fazer de um verso
um objeto sujeito
como passar do presente
para o pretérito perfeito
nunca saber direito

você nunca vai saber
o que vem depois de sábado
quem sabe um século
muito mais lindo e mais sábio
quem sabe apenas
mais um domingo

você nunca vai saber
e isso é sabedoria
nada que valha a pena
a passagem pra pasárgada
xanadu ou shangrilá
quem sabe a chave
de um poema
e olha lá

Ontem e hoje, e continuo não sendo o mesmo a cada dia

Há umas duas semanas aconteceu o VMA, e uma das apresentações foi a da cantora Beyoncé, que no final da sua apresentação declarou ser feminista em letras garrafais. Algumas pessoas a criticaram dizendo que ela não podia ser feminista, como se fosse um clubinho que você aprova quem pode ou não ser alguma coisa. Das pessoas que vi julgando o fato de ela ser feminista, a que me mais me indagou foi a que falou que ela não pode ser feminista pelo fato de ela ter escrito a música Single Ladies (Put a Ring On It), principalmente, por ela em um trecho da música cantar: “If you liked it then you should have put a ring on it.”.

Não conheço muito sobre feminismo, então, não falarei sobre um assunto que não tenho tanta propriedade. Mas, a intenção aqui não é falar sobre esse tema, e, sim, pegar esse fato como gancho do que quero falar: sobre o fato de as pessoas nos julgarem por coisas que fizemos ou escrevemos há anos.

Imagina você ser julgado por algo que escreveu ou fez há 6 anos? Se a cada dia tento ser uma pessoa mais crítica, mudar de opinião caso estou errado, por que alguém vai me julgar por algo que hoje discordo, mesmo tendo feito ou escrito anos atrás?

Como pretendo ser redator, não só pela obrigação do ofício, mas por gostar, tento escrever cada dia melhor. Se eu leio, por exemplo, o primeiro post do meu blog, vejo o quão ruim eu escrevia há dois anos. Todo esse tempo fez muita diferença em minha vida e no jeito de eu escrever. Então, por eu ter escrito pessimamente há dois anos, serei julgado para sempre por isso?

Algumas pessoas não conseguem se acostumar com mudanças. É estranho para algumas eu pensar diferente e ter me tornado uma pessoa mais crítica a qual eu não era no ensino médio. É estranho eu gostar de outros estilos musicais, os quais são diferentes do que eu ouvia antigamente. Tudo é estranho, não posso mudar, preciso permanecer intacto ao tempo.

Quero ser um ser mutável, mudar de opinião constantemente, não gostar hoje daquilo que eu gostava ontem. Não quero estagnar quando o que mais desejo é a mudança. E se você acha ruim essa mudança a cada dia, e quer continuar estagnado no tempo, quer saber, sua opinião pouco me importa.

Não sei se vai dar certo, mas vou tentar

Nunca fui muito de fazer listas de metas para serem cumpridas em um próximo ano. Achava desnecessário. Mas esse ano mudei de opinião. Ok, é só um ano que se encerra e outro que está para começar. Mas, por mais que a gente queira – eu pelo menos – encarar essa passagem de um ano para outro como algo trivial, ainda resta aquela sensação que é possível de mudar o que foi feito de errado, começar um projeto novo, etc.

Esse ano decidi fazer uma lista do que quero cumprir em 2014, e deixar aqui no blog para me lembrar sempre, e cada meta cumprida por mim ficará em negrito.

– escrever mais;

– continuar a estudar inglês;

– conseguir um estágio (apesar de não depender 100% de mim vou deixar na lista para ao menos me lembrar de que o próximo ano não pode terminar sem eu conseguir um estágio);

– fazer algum curso da Escola Cuca;

– ler mais por prazer;

– fazer das redes sociais mais um meio pra eu buscar conhecimento, e menos pra ver selfies;

– ir ao Inhotim.

Sonho x realização

juss cc from continuecurioso on Vimeo.

Nós, desde criança aprendemos que devemos estudar e que, ao crescermos, virarmos adultos, devemos ter um emprego, uma profissão. Mas, quando essa fase da vida chega, ao mesmo tempo em que temos a sensação de realização profissional, temos, também, a dúvida de como seria se se pudesse trabalhar em outra área, ter outra profissão.

Eu sempre quis fazer tudo: ser escritor, redator publicitário, diretor de filmes, roteirista. Hoje estou estudante de Publicidade e Propaganda. E, por mais que eu tenha a certeza de que estou no caminho certo, qualquer momento pode me vir a dúvida: “É isso mesmo o que quero pra minha vida?

Às vezes, trabalhar em um escritório, ter salário fixo e que todo início de mês seu salário esteja seguramente na sua conta, não quer dizer sinal de felicidade profissional. E o pessoal do site Continue Curioso nos mostra isso, com vídeos mensais, onde pessoas contam suas histórias de um jeito poético, em que a gente tem a certeza de que fazer o que a gente gosta é muito mais do que realização profissional: é realização pessoal.

O título sumiu

Pra quem é, ou pretender ser publicitário. Principalmente pra quem pretende ou trabalha com criação; mais específico: com redação publicitária. Esse texto é pra você! André Kassu, um dos maiores redatores do Brasil, que hoje é diretor de criação da AlmappBBDO, escreveu esse texto em que ele fala sobre os títulos terem sumido na propaganda. Você concorda com ele?

Esse não é um texto saudosista. Não cabem aqui lembranças de um velho tempo. É simplesmente uma constatação. O título anda sumido, escanteado, não globalizado, talvez. Eu não sei quanto a vocês, mas um bom título é sempre mágico de ler. O comentário roubado, aquilo que você jura já ter pensado, mas não foi capaz de traduzir. Curtos, em dois tempos, três tempos até. Os raciocínios inteligentes que mais parecem conceitos de tão bem pensados. E por que não, a maldade, a observação precisa das mazelas humanas?

Mais uma vez, não existe aqui uma tentativa de negar os novos tempos. É só uma homenagem, resgate que seja, de uma grande arte: o título. Eu sei, todo mundo quer pensar no viral de um milhão de views, na escada rolante “moonwalk” que desce em marcha a ré tocando Billie Jean. É natural. Mas a existência de um não deveria matar o outro. O gorila da Cadbury não enterra o Michael Jordan 1×0 Isaac Newton. Assim, como nem a mais brilhante das ações pode ser considerada superior aos títulos e textos do Neil Ferreira (ou alguém duvida que a morte do orelhão é uma ação genial?).

O título é tão injustiçado que quando ele é bom e o layout é ruim, ele morre. Mas quando ele é mais ou menos e a direção de arte é bonita, ele se perpetua. Pobre coitado. Fadado a não depender nem de si mesmo. De ser chamado em pedidos de “vamos evitar aquelas gracinhas ou piadinhas”. De ser confundido com dizeres. De ser constantemente substituído pelo seu primo abaixo, o subtítulo.

O fato é que nas revistas e nos anuários, o título tem andado de lado. E é injusto. Fazer título é exercitar a arte da síntese. É mais do que nunca, saber cortar palavras. Tanta coisa genial já foi escrita que cada detalhe faz a diferença. Páginas e páginas de títulos esquentam a mão, nos fazem pensar na importância de vírgulas, pontos e pausas.

Já ouvi gente que, para menosprezar o título, diz: eu penso visualmente. Ou, eu penso no conceito como o todo. Ou, eu penso global. E aí temos uma infinidade de anúncios com o logo  pequeno no canto direito, uma imagem e um conceito com interrogação. Tudo bem. Você pode não ser um tituleiro nato, mas por favor, saber escrever é básico. Ou deveria ser. Eu tenho visto pastas de redatores com muita intimidade com ações e pouca com as palavras. Gente que certamente tem  dificuldade para escrever um texto cabine de rádio (e sim, esses jobs existem).

Eu sei que gosto de título. E gosto do texto. Cada palavra escrita pelo Fábio Fernandes (leia os diálogos dos filmes e veja se tem alguma coisa ao acaso por ali. Releia o texto da crise), o olho atento do Eugenio Mohallem, a fina ironia do Wilson Mateos, a mistura de loucura, ódio e formulinha zero do Edu Lima. A maldade angelical do Roberto Pereira, a inteligência e emoção do Olivetto, tudo do já mencionado Neil e a nostalgia que me bate ao ler o texto do Pelourinho do Nizan. O “experimente ser magra” do Peralta, “a história de um homem feliz” do Luiz Toledo e o Renato Simões que escreve muito antes de existir a categoria técnica do anuário. Escrever não deveria ser uma preocupação dos redatores, apenas. “Você bebe e não ganha nada” foi criado pelo Marcello Serpa. E matou legiões de redatores de inveja. Sem falar no André Laurentino, que saiu da direção de arte para a redação, escreveu livro e o melhor texto sobre filho único que eu já li.

O título me faz uma falta que o twitter não preenche. Ainda que o twitter prove que as palavras continuam importantes.  Os tais 140 caracteres viraram o refúgio dos tituleiros, como disse o Rodolfo Sampaio. Só que tudo vira briefing e a disputa é pelo RT.  E são tantos títulos a todo instante, que o critério e a magia se perdem.

Pode parecer antigo ou fora de moda. Pode não ser o jeito mais fácil de ganhar Leão ou fazer sucesso nos comentários anônimos. Mas um bom título é e continuará sendo sempre excelente propaganda.