Perda de espaço

Minha tia comprou um Smartphone, desses que acessam internet, tem WhatsApp e, de quebra, dá para fazer ligações. Antes ela tinha um celular de flip, normal, que fazia ligações e enviava mensagem apenas. Então, ela resolveu trocar por um celular mais sofisticado, 2 chips, o que facilita usar dois números: um para falar com os parentes do interior e outro para usar com as pessoas de Belo Horizonte.

É curioso perceber essa relação que atualmente ela se dá com o novo celular. Quando passamos de um celular comum para um celular com mais funcionalidades, perdemos um pouco do nosso espaço. Antes era possível receber uma notificação de uma nova mensagem ou de uma mensagem da caixa postal. Hoje, tem notificação de Facebook, WhatsApp, Instagr.am, Snapchat, Twitter, e por aí vai. Não que minha tia use todos esses aplicativos, mas a relação que ela passou a ter que ter com alguns a deixou um pouco abafada, com a sensação de estar perdendo seu espaço.

Ela comentou comigo que as pessoas que têm WhatsApp não dormem, que ficam o dia todo mandando mensagem em grupos, etc., e tal. E acho que isso não é uma crise só de quem passou a ter contato com tecnologias por agora, isso não difere dos meus pais ou de mim, que desde sempre tive acesso a tecnologias com maior facilidade, porque, de fato, às vezes incomoda essa perda de espaço.

Falei depois que aquela sinalização azul no WhatsApp significa que a pessoa leu sua mensagem. No Snapchat sei quem abriu a foto que mandei; no Facebook sei quem leu a mensagem que mandei ou se entrou e não respondeu. E acho que é interessante de certo modo saber que minha tia não se abalou ao saber que de acordo com a sinalização azul, a pessoa do outro lado da tela saberia que ela leu a mensagem e não respondeu. “Agora não posso responder ou só não estou a fim mesmo”.

Tenho quase certeza que a geração anterior à minha está mais acostumada a esperar do que a minha geração. A geração que usava barça e enciclopédias aprendeu a ter paciência quando conseguir uma informação nesse amontoado de livros era mais precário e lento do que hoje, que basta digitar uma pergunta no meu celular, e simultaneamente tenho sua resposta. Não é nem uma tentativa de ser nostálgico, de comparar qual época é melhor. Mas é fato que hoje estamos perdendo nosso espaço – não o físico, mas o temporal -, e cada um lida de um jeito com essas mudanças.

Hoje, de fato, precisamos e temos a sorte de ter mais agilidade em algumas coisas pensando no fato de que se eu envio uma correspondência pelos Correios tenho a facilidade de que a encomenda chegue no destinatário no dia posterior. Talvez, seja aí, que começou essa necessidade de apressar tudo, até as respostas que precisam de maturação.

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Samba da meia noite

Saímos para fazer samba. Falando a verdade verdadeira, saímos para beber, espairecer. Não foi uma semana fácil em nossas vidas. Precisávamos espairecer.

Bom músico que é, não sai de casa sem algo que possa fazer um batuque, nem que seja uma caixa de fósforo, que certamente nunca esquece, já que sempre bebe cerveja com a companhia do seu cigarro de palha.

Eu que nem sabia que era músico, vagando  pela madrugada, fizemos um samba que nem samba sabemos se é.

O céu estrelou, o povo dormiu
Eu pelas ruas, você já deitada
Meu amigo Caetano certo está
Gente nasceu pra brilhar
Pra morrer é que não foi

E assim fomos, caminhando e batucando em cada mesa de bar que encontrávamos aberto, até o dia raiar. Os problemas começam sempre na mesa do bar e acabam de manhã na primeira golada de um café sem açúcar. Talvez dessa vez tivéssemos atinado para a realidade.

Férias

Passei as férias de verão na casa dos meus pais. Me sinto num seriado americano falando férias de verão, mas não sei muito bem que definição certa nós damos para as férias dessa época do ano. Talvez, férias de fim de ano mesmo, não sei.

Ontem caiu um passarinho de uma árvore perto da casa dos meus pais, filhote ainda, mal sabe andar, quem dirá alçar voo. Peguei o pássaro, não sei qual sua espécie, e levei lá para casa. Meus pais vão cuidar dele até ele ficar maior e conseguir voar para eles poderem o soltar.

De uns tempos para cá, meu pai descobriu outra habilidade que ele não pensava ter, e começou a fazer móveis. Mesa. Cadeira. Armário. Sugeri que ele fizesse um curso para melhorar suas habilidades, já que ele ainda não sabe fazer alguns tipos de móveis. Tinha um dos que ele fez na varanda, sem uma utilidade aparente, que mais parece ter sido referenciado do tronco de algum ser humano. Perguntei minha mãe o que era aquilo, no que ela me respondeu: “É arte”.

Minha tia vai me dar sua máquina de escrever. Ela já não a usa mais, então, eu a pedi para levar e usar na decoração do meu quarto. Ela ficou sem entender o que eu ia fazer com um objeto que nem para ela mais tem utilidade. “Hoje tudo se faz no computador”. Falei com ela que é vintage, que ia ficar atraente no quarto e eu poderia usar para escrever alguns textos. Ela me entregou a máquina, e já guardei para levar. Mas ela ainda continua sem entender que utilidade eu vi no trambolho.

De tudo isso, só vai restar a saudade. E o desejo de retornar.

Sobre a necessidade de desatar nós

Gervasio Troche

É difícil desatar nós. Na verdade, uns são mais fáceis; já outros, são um verdadeiro tormento. O nó de pescador, por exemplo, acho quase impossível. Tão apertado que é, que se me entregarem algo amarrado a esse tipo de nó, e eu precisar desamarrar, não penso duas vezes em pegar uma faca ou tesoura para cortar.

Acredito que para a maioria das pessoas seja difícil mesmo desapegar. Algumas pessoas conseguem facilmente, mas acredito que a maioria, não. São relacionamentos opressores, amizades que nos pesam, empregos que são confortáveis demais, ou mesmo aquela camiseta que já nem se usa mais.

A função de um nó é nos dar a ilusão de que está tudo bem, que nada precisa ser mudado. “Continue assim, do jeito que está, mudar só vai piorar as coisas.”. Acreditamos, porque é mais fácil ficar ali, no quentinho. Não esse calor de quarenta graus Celsius que tem feito ultimamente, mas aquele quentinho, que afaga, conforta.

Os nós pessoais, da vida, acredito existir dois tipos: aqueles que nos machucam, nos ferem, mas, mesmo assim, é um nó difícil de desatar. E aqueles que nos deixa confortáveis, acostumados, e cria o medo de sair desse conforto, desse lugar quente que mais parece colo de mãe. Acho que esses tipos de nós, às vezes, são até mais difíceis do que o nó de pescador para desatar. E, nesse caso, não adianta pegar uma faca ou tesoura para cortar. Para esses tipos, só o tempo funciona. É mais demorado, gera angústia, mas acredito ser a única maneira.

Insta (ntes)

As coisas começam a sair da sua rota natural quando as pessoas vão ao museu e, ao invés de apreciar as obras, preferem registrá-las com a câmera do celular. Registar, sem nem tomar consciência de sua proposta, sem nem pensar “Meu Deus, o que é que eu tô fazendo aqui?”. E registram. Tiram foto. Take a picture.

Talvez eu seja daquela leva de velhos rabugentos que se incomodam com quase tudo. Vai saber. Não que eu concorde quando as pessoas falam que as coisas no tempo delas era melhor, longe de mim, mas acho que é hora de começarmos a pensar quando as coisas começam a nos afetar para o mal. Também não posso falar muito porque meu Instagram é composto por uma pequena seleção de selfies; ou posso? Talvez seja melhor mesmo você só ver o documentário, já que as conclusões deixei a seu cargo.

Insta(ntes) from Henrique Félix on Vimeo.

Ensinamentos passados por gerações

Certa vez numa conversa que tive com uma amiga sobre moral, valores e bons costumes , lembro de chegarmos num momento em que ela falou: “Ah, eu acho que isso seja certo porque meus pais me criaram assim”. O problema de acreditarmos piamente nisso é que fazemos ou deixamos de fazer algumas coisas e a julgar outras com base nisso.

Meus pais me deram uma criação primorosa, mas hoje já não concordo com algumas das coisas que aprendi com eles. Infelizmente, nossos pais foram criados numa sociedade machista e com muitos valores enraizados que eles nos passam como algo natural, imperceptível.

Uma amiga escreveu uma publicação no Facebook que vai nessa lógica dos ensinamentos passados por geração:

“Sei bem que a gente acaba, em vezes, participando de algum tipo de preconceito pelo jeito que o lugar onde vivemos o transforma em algo natural… Isso faz a gente pensar que tudo bem alguns comentários passados de geração em geração. Mas não, preconceito disfarçado de costume ainda é preconceito; camuflar ele só gera mais ignorância”.

Não é questionar se seus pais ou os meus são os piores do universo, mas aprendi coisas que não acredito serem certas.

O problema em acreditar cegamente na máxima de que se um ensinamento foi passado por gerações é de que, dependendo da roupa que a mulher está usando, por exemplo, ela é uma baita de uma periguete; há quem acredite nisso, e use para julgar a indumentária de outras pessoas, mas roupa não faz caráter de ninguém. E, mesmo que fizesse, que direito temos de meter o bedelho no que outra pessoa usa ou deixa de usar?

Ainda acredito que pessoas mais velhas que eu são livros vivos, com baitas histórias de vida e ensinamentos. Numa conversa com minha tia hoje, aprendi a colocar gelatina sem sabor quando eu for fazer uma musse de maracujá para ficar mais consistente. Só tento ligar meu alerta imaginário dependendo do rumo que a conversa toma para não aprender coisas que não sei como um dia foram ditas como certas.

Um norte

No último dia do ano passado escrevi uma lista das coisas que queria fazer esse ano. Agora, escrevo uma lista com os desejos para 2015; menos para ser uma lista de desejos, e mais para ser uma lista de metas: as duas palavras têm uma grande diferença para mim. Acabei por não conseguir fazer tudo do que me propus a fazer esse ano, e espero que para o próximo seja diferente.

Tentativas de rumo para 2015:

– Ler mais livros, e menos texto de internet;
– Escrever mais, sempre mais e melhor;
– Assistir mais filmes;
– Ir ao Inhotim;
– Ser fluente em inglês, ou quase isso;
– Parar de ler comentários de portais de notícia;
– Viajar para qualquer lugar que eu não tenha ido, por mais próximo que seja, apenas que sirva para me conectar com o desconhecido;
– Fazer trabalhos da faculdade com a maior antecedência possível;
– Conseguir um estágio como redator publicitário;
– Experimentar novas habilidades, a fotografia, talvez;
– Precisar menos da atenção dos outros.

O que foi legal em 2014:

– Consegui o primeiro estágio. Por fim, não era a área que eu queria, mas tive a oportunidade de aprender bastante com pessoas incríveis;
– Viajei pela primeira vez a Ouro Preto com um amigo;
– Comecei a ler sobre feminismo, movimento negro e luta de minorias, e são temas que quero continuar lendo e sempre colocando em prática;
– Conheci pessoas incríveis, tanto pessoalmente quanto pela internet;
– Me tornei colaborador do site Follow The Colours, um dos sites que mais adoro, e agora estou lá escrevendo sobre assuntos que gosto de ler;
– Mudei de casa, quase o melhor feito do ano.

O que não foi legal em 2014:

– Perdi tempo com discussões no Facebook que vi não levarem a nada. Passei a entender que é muito mais saudável e enriquecedor uma conversa numa mesa de bar do que gastar meu teclado discutindo com alguém;
– Mudei de casa, mas como mudei para uma república, fiquei boa parte do ano sem uma escrivaninha, o que dificultou um pouco a vida;
– Não consegui ir ao Inhotim, por isso, acabou entrando na lista do próximo ano de novo. Sad.