Última vez

Transaram como se fosse a primeira vez que estavam praticando o ato. Ou a última. A melhor transa que ela lembra já ter feito com a mulher que mais ama. Comprou vinho, queijos dos mais variados tipos e velas – de todas as cores e cheiros. O melhor clima para a melhor transa da vida que estava para acontecer.

Ester teve um dia cansativo, era sexta-feira, e queria chegar logo em casa ao menos para descansar, mas com as constantes brigas que estava tendo com a esposa, adiou um pouco sua ida para casa. Queria e não queria conversar com a mulher que ela mais amou até hoje.

– O melhor vinho do porto, por favor. – solicitou Ester

Pediu ao sommelier o melhor vinho, não importava o preço, queria beber o vinho que a encantou na sua última viagem a Portugal. Dizem que nesse vinho há algo que aguça todas nossas papilas gustativas, umas que nem sabíamos existir. Era esse mesmo que decidiu levar, pagou à vista, no dinheiro.

Antes de ir para casa, deu umas voltas pela cidade para arejar. Mas o que Ester não queria era chegar em casa.

Avistou uns amigos num bar na Vila Madalena, ligou para confirmar se eram eles, estacionou o carro e foi ao encontro. Ficou conversando e bebendo por algum tempo, até que percebeu que já era hora de ir embora. Deixou o dinheiro para pagar sua  parte e foi embora. Nem cogitou pegar táxi mesmo depois de beber três copos de cerveja. Como morava a cinco quarteirões do bar onde estava, achou que não teria problema em dirigir.

Chegou em casa, beijou sua esposa e ficaram conversando. Beberam o melhor vinho do porto, comeram os queijos de nome que era até difícil pronunciar. Velas acesas, a música que as duas amavam tocando e a melhor transa da vida delas acontecia. A melhor transa, o melhor gozo, a melhor noite.

Ester morreu depois da transa. Morreu por dentro ao constatar que não ama mais quem ela amou por tantos anos.

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Carol, me atende, eu sei que você tá aí. Eu já fui duas vezes na portaria do seu prédio, e o Seu Silvio disse que você está em casa, mas falou que você pediu pra não deixar eu subir. Por que você tá fazendo isso? É isso que tô me perguntando e não encontro a resposta. Na verdade, a resposta dessa pergunta que fica martelando na minha cabeça só depende de você, mas, de fato, morrerei sem saber. Mas quer saber a verdade? Eu tô pouco me fodendo pra tudo isso. Eu já fiz de tudo pra tentar entender porquê tudo chegou nesse ponto, e se você não quer me ajudar encontrar a resposta, não vou procurar sozinho. É isso. Eu desisto. Vou partir pra outra e buscar novas respostas pra outras outras perguntas com quem vai me ajudar nessa busca. Talvez o amor seja isso, uma eterna busca por respostas. Mesmo que ela se encontre no silêncio dos pares. Um abraço, Carol, e depois desça na portaria e busque seus pertences que a mim não pertencem mais.

Imagem: http://isabella-veloso.tumblr.com/